Seu currículo pode nunca ser lido: inteligência artificial elimina 70% dos candidatos já na primeira triagem
Especialista em recrutamento e seleção Frederico Sieck, CEO da Koud, estima que sete em cada dez candidatos são reprovados pela pela IA, em um processo de seleção
A elaboração de um currículo para se candidatar a uma vaga de emprego agora deve levar em conta uma etapa anterior à análise feita por um profissional de recrutamento. É cada vez mais comum o uso de inteligência artificial para uma verificação e seleção prévia dos documentos.
Em outras palavras, é dizer o seguinte: uma boa parte dos currículos chega sequer a ser lida pelo recrutador. A inteligência artificial faz uma primeira triagem. Só são classificados, assim, os currículos cuja descrição contenha termos, palavras-chave e informações que se relacionem diretamente à vaga em questão.
O alerta é do especialista Frederico Sieck, CEO da Koud, startup de recrutamento e alocação de profissionais, com foco no mercado de tecnologia. Com base em sua experiência empírica, o profissional estima que pelo menos 70% dos perfis são reprovados não por falta de qualificação do candidato nem de treinamento da IA, "mas sim porque os currículos não contêm palavras-chave adequadas, que a IA possa entender e qualificar como um currículo válido".
Segundo o executivo, são, em sua grande maioria, currículos com falta de informação, mal escritos, sem palavras-chave, falta de objetividade no que o candidato está buscando ou perfis muito genéricos. “Não é mais tendência. É realidade a IA ser utilizada nos processos seletivos para analisar perfis, decidindo se um recrutador técnico deve ou não entrevistar um candidato”, avalia o CEO da Koud.
Frederico Sieck, CEO da Koud
Esse novo cenário tem seus prós e contras, mas, de imediato, impõe mudanças na forma de elaboração e encaminhamento de currículos. “É problemático, porque profissionais altamente qualificados podem ser desclassificados se não souberem elaborar um currículo claro ou completo”, alerta.
Ocorre que a inteligência artificial faz uma primeira validação baseada apenas no que está textualmente expresso no documento. Desse modo, se o convencional era produzir um currículo sucinto, o ideal agora passa a ser construir um documento com mais informações e detalhamentos, observa Sieck.
Um currículo mal feito, se já restringia bastante o avanço do candidato em um processo de seleção, agora é fatal, ressalta o recrutador. “A inteligência artificial não consegue inferir a experiência do profissional. Se essa experiência não estiver explicitamente descrita no documento, o currículo vai ser barrado antes mesmo de chegar ao entrevistador humano".
Texto: Engenharia de Comunicação
Imagem: divulgação
Em algumas áreas, a nova realidade é mais desafiadora. É a situação do setor de tecnologia. Sieck pontua que profissionais dessa área, pelo seu perfil e principalmente pelas características de suas atividades, costumam elaborar currículos com uma construção textual mais objetiva, sucinta, pragmática, e por vezes isso é considerado insuficiente por uma análise de IA.
Ele menciona casos que acompanhou de perto. Em um deles, três bons candidatos foram desclassificados pelo currículo mal feito. Em outro, a inteligência artificial reprovou todos os 100 currículos submetidos, forçando o recrutador a selecionar três aleatoriamente. “Eram profissionais qualificados, porém com currículos mal elaborados, e então barrados pela IA na análise textual dos documentos".
Como, então, convencer a IA? Além de um maior detalhamento do documento, é importante incluir termos e palavras-chave específicas para a vaga. Ainda, mencionar, no caso de profissionais de tecnologia, nomes de ferramentas que utiliza. "Principalmente, escrever o currículo de forma clara e objetiva", sublinha.
Isso significa reproduzir no currículo a linguagem usada na descrição da posição. Em uma vaga de tecnologia, por exemplo, sistemas de triagem costumam buscar termos como “Python”, “SQL”, “análise de dados” ou “gestão de projetos”. Se essas palavras não estiverem explícitas no currículo, o candidato pode nem avançar na triagem inicial, ilustra Sieck.
Para tanto, é preciso ler atentamente a descrição da vaga, o chamamento ou edital do processo de seleção. Isso requer tempo, atenção e paciência, recomenda o CEO da Koud.
De todo modo, na Koud, sempre que a inteligência artificial recusa um candidato, porém com nota entre 60% e 79% de assertividade com a vaga, o currículo é direcionado para que um profissional humano faça uma avaliação, inclusive com a possibilidade de marcar uma entrevista técnica. "Isso nos ajuda no processo de melhoria da IA e também a não perder bons candidatos", explica Sieck.
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