‘Novo tarifaço’ sobre móveis brasileiros entra em vigor; ABIMÓVEL reforça defesa do setor em reunião com o Governo

Nova tarifa dos EUA entra em vigor; ABIMÓVEL reforça atuação junto ao Governo para mitigar impactos no setor de móveis

Postado quarta-feira 22/07/2026 por Redação

Categorias: Design Empresas Notícias

‘Novo tarifaço’ sobre móveis brasileiros entra em vigor; ABIMÓVEL reforça defesa do setor em reunião com o Governo
‘Novo tarifaço’ sobre móveis brasileiros entra em vigor; ABIMÓVEL reforça defesa do setor em reunião com o Governo

 

Sobretaxa de 25% passa a valer nesta quarta-feira, 22 de julho; cargas já embarcadas e em trânsito poderão ficar isentas se o desembaraço ocorrer antes de 29 de julho; entidade levou ao MDIC os impactos e apresentou propostas para a preservação da produção, emprego, exportações e competitividade do setor

 

 

Entra em vigor hoje, 22 de julho de 2026, a tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre parte das importações originárias do Brasil, incluindo a maior parte dos móveis e colchões exportados pelo país.

 

 

A cobrança passa a alcançar as mercadorias embarcadas para os Estados Unidos a partir desta quarta-feira. O prazo de isenção previsto na regra de transição, contudo, foi ampliado após o anúncio oficial: cargas já embarcadas e em trânsito poderão ficar fora da sobretaxa, desde que o desembaraço aduaneiro seja realizado antes das 0h01 do dia 29 de julho, no horário da costa leste norte-americana.

 

 

Também nesta quarta-feira, a ABIMÓVEL (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), representada por seu presidente, Irineu Munhoz, participou da primeira rodada de reuniões promovida pelo governo federal com os setores produtivos mais afetados pelas tarifas. A entidade levou ao governo os impactos específicos da medida e apresentou propostas em defesa da produção, dos empregos, dos investimentos, das exportações e da competitividade da indústria brasileira de móveis. Desde o início das sobretaxas impostas pelos Estados Unidos no ano passado, mais de 10 mil postos de trabalho no setor já foram afetados.

 

 

ABIMÓVEL apresenta impactos e propostas ao governo

 

 

Realizada em Brasília (DF), a agenda de trabalho foi conduzida pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, e reuniu representantes da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), dos ministérios da Fazenda (MF) e das Relações Exteriores (MRE), além de lideranças de entidades setoriais.

 

 

O encontro teve como objetivo ouvir as indústrias mais impactadas, compreender os efeitos das tarifas sobre as cadeias produtivas e avaliar alternativas para reduzir seus reflexos sobre a economia brasileira. Os representantes apresentaram suas demandas e contribuíram com informações e sugestões que deverão subsidiar as próximas etapas das negociações.

 

 

Representando o setor moveleiro, Irineu Munhoz apresentou um panorama dos efeitos das medidas sobre as exportações, a produção e o emprego, além de alternativas para mitigar seus impactos. Em consonância com as demais lideranças presentes, o presidente da ABIMÓVEL defendeu também a continuidade das negociações entre Brasil e Estados Unidos como o caminho mais adequado para alcançar uma solução equilibrada, preservar as relações comerciais e assegurar maior previsibilidade às empresas.

 

 

“A imposição da tarifa compromete uma relação comercial construída ao longo de décadas, sem oferecer benefício proporcional à indústria dos Estados Unidos. Continuaremos trabalhando pela manutenção do diálogo e por condições mais equilibradas de acesso a esse mercado tão importante”, afirma Munhoz.

 

 

O que muda para as empresas

 

 

Após o prazo de transição, inclusive para produtos mantidos em armazéns alfandegados, a nova tarifa será somada à alíquota aduaneira ordinária correspondente a cada código do sistema tarifário dos Estados Unidos, o HTSUS.

 

 

Embora seja recolhida pelo importador, a tarifa tende a produzir efeitos em toda a operação comercial. Na prática, compradores norte-americanos poderão pressionar preços, solicitar renegociações, reduzir volumes, adiar pedidos ou repassar o custo ao varejo. Do lado brasileiro, as empresas poderão enfrentar compressão de margens, perda de competitividade e redução das vendas.

 

 

Essas possibilidades não são obrigações impostas pela nova regra, mas desdobramentos comerciais prováveis diante do aumento de custos. Se o adicional for absorvido, compromete a rentabilidade das empresas; se for repassado, eleva os preços nos Estados Unidos e pode retrair a demanda. Em qualquer dos cenários, os efeitos são negativos para ambos os lados: exportadores brasileiros e importadores, distribuidores, varejistas e consumidores americanos.

 

 

Parte do mobiliário brasileiro já estava sujeita a tarifas adicionais de 25% sob a Seção 232, mecanismo relacionado à segurança nacional dos Estados Unidos. A indicação inicial é de que os produtos enquadrados nesse regime não acumularão a nova cobrança da Seção 301, evitando o chamado stacking. A aplicação desse tratamento dependerá, contudo, da classificação de cada produto e dos procedimentos adotados pelas autoridades aduaneiras norte-americanas.

 

 

Medida atinge uma das cadeias que mais empregam no Brasil

 

 

A nova barreira alcança uma indústria de ampla capilaridade econômica e produtiva. Em 2025, o setor de móveis e colchões no Brasil reuniu mais de 22,8 mil empresas, gerou 287,2 mil empregos diretos e produziu 434,7 milhões de peças. Ao longo da cadeia, estima-se ainda a manutenção de cerca de 1,1 milhão de postos de trabalho indiretos.

 

 

No mesmo período, o faturamento industrial chegou a R$ 92,1 bilhões, enquanto as exportações de móveis e colchões prontos somaram US$ 769,3 milhões. O Brasil é o maior produtor de móveis da América Latina e o sétimo maior do mundo.

 

 

A tarifa entra em vigor em um momento de forte retração das vendas brasileiras de móveis e colchões aos Estados Unidos. Entre janeiro e maio de 2026, os embarques ao mercado estadunidense somaram US$ 49,6 milhões, queda de 41,7% em relação ao mesmo período de 2025. A participação do país nas exportações brasileiras do segmento caiu de 27,8% para 17,4%. Os efeitos das sucessivas mudanças tarifárias já haviam aparecido no fechamento de 2025, quando as vendas aos Estados Unidos recuaram 19,9%.

 

 

No total, as exportações brasileiras de móveis e colchões alcançaram US$ 284,8 milhões entre janeiro e maio de 2026, retração de 6,9% na comparação anual. Excluídos os Estados Unidos, os embarques aos demais destinos cresceram aproximadamente 6,4%, compensando parte da perda no mercado norte-americano, mas não sustentando crescimento, o que confirma que a produção destinada aos Estados Unidos não pode ser automaticamente redirecionada para outros destinos.

 

 

Parte dos móveis é desenvolvida sob encomenda, com dimensões, materiais, especificações técnicas, certificações e padrões comerciais próprios daquele mercado. A entrada em outros países exige adaptações de produto, novos canais de distribuição, relacionamento com compradores e tempo para consolidação. A diversificação é necessária, mas não substitui a forte relação comercial com os EUA.

 

 

Defesa técnica demonstrou complementaridade

 

 

Anunciada em 15 de julho, a tarifa é resultado da investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Embora mais de 400 códigos tenham sido acrescentados à lista de exceções em comparação com a proposta inicial, a proteção não foi estendida de forma ampla ao setor moveleiro.

 

 

A maior parte dos móveis residenciais e corporativos, colchões e produtos fabricados em madeira, metal ou plástico será alcançada pela sobretaxa, ressalvados os códigos expressamente preservados ou submetidos a outros regimes tarifários.

 

 

A ABIMÓVEL, com assessoria da BMJ Consultores Associados, apresentou defesa técnica ao USTR e participou das audiências públicas realizadas em Washington nos dias 6 e 7 de julho. A entidade demonstrou que o mobiliário brasileiro não representa ameaça à produção dos Estados Unidos. Pelo contrário. Embora o mercado americano seja historicamente o principal destino das exportações brasileiras do segmento, o Brasil responde por apenas cerca de 0,7% das importações de móveis dos EUA. Vietnã, México e China, em comparação, concentram juntos quase dois terços dessas compras.

 

 

A defesa também destacou a complementaridade entre as duas indústrias, reforçando o atendimento a demandas específicas dos compradores norte-americanos, a regularidade do fornecimento brasileiro, as práticas trabalhistas e comerciais das empresas, além da rastreabilidade e do uso predominante de matérias-primas provenientes de florestas plantadas e manejadas de forma sustentável.

 

 

A investigação que originou a tarifa, no entanto, examinou temas que ultrapassam o comércio de bens e não estão diretamente relacionados à indústria de transformação, como o Pix, a regulação de plataformas digitais, o acesso ao mercado brasileiro de etanol, a propriedade intelectual, o combate à corrupção e o desmatamento ilegal.

 

 

Governo avalia apoio e abertura de mercados

 

 

Além da continuidade das negociações com os Estados Unidos, a resposta brasileira está concentrada em duas outras frentes: a abertura de mercados para os produtos afetados e a preparação de um pacote de apoio às empresas, em uma nova edição do Plano Brasil Soberano.

 

 

Dos R$ 18,5 bilhões previstos para o chamado “Plano Brasil Soberano III”, R$ 13,5 bilhões virão do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões serão disponibilizados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Os recursos poderão financiar capital de giro, aquisição de bens de capital, investimentos produtivos, inovação tecnológica, adaptação de produtos e processos, bem como abertura de novos mercados. As taxas subsidiadas variam de 3% ao ano para linhas destinadas a minerais críticos a 9,80% ao ano para capital de giro de grandes empresas.

 

 

Como parte da estratégia de diversificação, a ApexBrasil informou também ter reservado R$ 130 milhões para ações de promoção comercial. Os esforços deverão priorizar a União Europeia, os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) e mercados da Ásia Central, como Uzbequistão e Cazaquistão.

 

 

O governo brasileiro também anunciou que iniciará os procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade e retomará o tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio. Para a cadeia moveleira, entretanto, a eventual aplicação de medidas recíprocas também exige cautela. A indústria brasileira utiliza matérias-primas, insumos, componentes, máquinas e tecnologias também importados, inclusive dos Estados Unidos. A imposição de novas barreiras sobre esses produtos poderia elevar os custos de produção no Brasil e ampliar os efeitos negativos já provocados pelo “tarifaço”.

 

 

Por isso, a ABIMÓVEL defende que qualquer resposta seja cuidadosamente calibrada para não atingir ainda mais à atividade industrial. A prioridade deverá ser a combinação entre apoio às empresas afetadas, diversificação comercial e continuidade do diálogo bilateral, evitando que uma escalada de barreiras comprometa ainda mais exportadores, fornecedores e demais elos das duas economias.

 

 

Texto:  Thaís . Imprensa Abimóvel

Imagem: divulgação

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