Com queda de 82% na locação temporária, design de interiores deixa de ser "instagramável" e retoma identidade e pertencimento
Após anos de boom dos imóveis pensados exclusivamente para locação temporária, o mercado começa a dar sinais claros de desaceleração. Em São Paulo, os lançamentos desse tipo de empreendimento caíram cerca de 82% em menos de quatro anos, segundo dados da consultoria de inteligência Brain.
Postado quarta-feira 04/03/2026 por Redação
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O movimento, que à primeira vista impacta investidores e incorporadoras, já provoca mudanças profundas na forma como arquitetos e designers projetam interiores. Especialmente em casas de férias e nos imóveis destinados a estadias curta
A transformação é global, e o debate já existe no cenário internacional. Na última edição do Salone del Mobile Milano, esse tema veio à tona em conjunto com outras pautas como pertencimento, longevidade, sustentabilidade e design como narrativa real.
Para Priscila Poli, designer de interiores e especialista em casas de férias à frente da Casamar, o setor atravessa uma virada conceitual impossível de passar despercebido. “Estamos saindo do imóvel instagramável, neutro e padronizado, pensado para agradar todo mundo, para voltar ao espaço com identidade, permanência e experiência de vida. A ideia hoje é se sentir morando no lugar, criar memórias, mesmo que você esteja só de passagem”, afirma.
Segundo ela, o modelo anterior privilegiava cenografia e rotatividade. “Era um design pensado para fotografia e alta troca de hóspedes. Funcionava como vitrine: bonito, neutro e facilmente replicável.” Agora, o foco volta a ser o uso real do espaço.
Principais mudanças: móveis duráveis, iluminação de verdade e layouts para criar memórias
Entre as principais mudanças apontadas por Priscila na volta do “morar de verdade” (ainda que por poucos dias), está a priorização por móveis feitos para durar, resistentes para o uso real do dia a dia e com design atemporal e com personalidade. “Percebemos que as pessoas querem viver a experiência de pertencimento”, explica.
Segundo ela, o novo momento não significa abandonar a locação temporária, mas repensar sua lógica, criar novos caminhos para atender à demanda do público. Saem de cena layouts mais engessados, e entram projetos com maior criatividade. Dentro dessa mesma lógica, o minimalismo, antes celebrado e reverenciado, dá espaço a ambientes com mais cor, textura e emoção.
Outro ponto importante é a iluminação, que, durante muito tempo foi pensada como elemento cenográfico, voltado para o impacto visual e não para o aconchego. Nesta nova realidade mercadológica, ela volta a assumir o papel principal no conforto e na criação de uma atmosfera convidativa. “Não é novidade que a luz amarela (2700K-3000K) é mais confortável ao olhar, enquanto a luz branca fria (>4000K) estimula e deixa o ambiente mais ativo. O problema é quando toda a casa é pensada apenas com foco no efeito visual. Hoje buscamos equilíbrio, com diferentes temperaturas de cor ao longo do espaço, respeitando os momentos de uso”, explica.
“O hóspede quer abrir uma gaveta funcional, ter onde guardar a mala, sentir que pode ocupar aquele espaço com naturalidade. A experiência precisa ser fluida, real e criar memórias para sempre”, diz.
Do Instagram ao hygge: a volta do aconchego como maneira de viver
Se antes o foco estava na imagem perfeita para as redes sociais, agora o conceito dinamarquês de hygge ajuda a traduzir essa nova busca por pertencimento e permanência, mesmo em estadias curtas. Sem tradução literal, o termo está associado à sensação de conforto, acolhimento e bem-estar nos pequenos momentos cotidianos.
Priscila abrasileirou o termo e incorpora a sensação em todos os projetos criados por ela. “O hygge fala sobre intimidade e presença, mas também sobre luz natural, mistura de texturas, memórias afetivas e uma relação íntima da pessoa com o ambiente”, explica. Segundo ela, não se trata de copiar a estética escandinava, mas de incorporar o princípio do aconchego à realidade tropical, criando ambientes que convidam à permanência e ao uso verdadeiro do espaço, criando momentos onde a sensação de férias seja permanente.
A releitura da especialista corrobora diretamente com esta virada do mercado imobiliário. “O segmento, que antes priorizava neutralidade, cenografia e alta rotatividade dá lugar a espaços mais afetivos, com camadas de cor, iluminação bem pensada e soluções funcionais que estimulam a vida feita no cotidiano. É o ambiente para ser vivido, e não apenas postado”, relata.
Texto: Gabriel
Imagem: divulgação
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