7 erros na marcenaria planejada que podem comprometer o resultado de um ambiente
Um projeto de móveis planejados começa muito antes da fabricação ou da instalação. Ele envolve decisões sobre materiais, ferragens, circulação, infraestrutura elétrica e hidráulica, medidas, acabamentos e, principalmente, sobre a forma como aquele ambiente será utilizado no dia a dia.
A dimensão da indústria ajuda a mostrar a importância dessas escolhas. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (ABIMÓVEL), o Brasil produziu 434,7 milhões de peças de móveis e colchões em 2025, em um setor formado por mais de 22,8 mil empresas e que movimentou R$ 92,1 bilhões no período.
Os painéis de madeira, amplamente utilizados na fabricação de móveis, também ocupam espaço relevante nessa cadeia. Dados da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) mostram que a produção brasileira de painéis de madeira atingiu 9,7 milhões de metros cúbicos em 2024, maior volume da série histórica apresentada pela entidade. No mercado interno, foram comercializados 5,3 milhões de metros cúbicos de MDF e 2,9 milhões de metros cúbicos de MDP.
A disponibilidade de materiais, padrões, acabamentos e sistemas amplia as possibilidades de personalização, mas também torna o planejamento técnico mais importante. Ao longo de mais de 20 anos trabalhando com móveis planejados, observo que muitos problemas percebidos depois da instalação começaram bem antes dela.
Uma escolha inadequada pode resultar em portas que interferem na circulação, tomadas escondidas, materiais expostos a condições para as quais não foram especificados ou móveis bonitos que simplesmente não funcionam bem na rotina.
Entre os erros que mais podem comprometer um projeto, sete merecem atenção especial.
Escolher o material apenas pela aparência
Cor, textura e padrão visual são importantes, mas desempenho e finalidade também precisam orientar a escolha. MDF e MDP, por exemplo, possuem características que devem ser avaliadas de acordo com a estrutura do móvel e as condições de uso.
Especificar corretamente significa pensar não apenas em como o móvel ficará pronto, mas em como aquele material responderá ao uso ao longo dos anos.
Usar materiais inadequados em áreas úmidas
Cozinhas, banheiros e lavanderias exigem atenção especial à umidade. Painéis, bordas, vedações, recortes e pontos próximos a pias, pisos e instalações hidráulicas precisam ser especificados considerando essa exposição.
Quando isso não acontece, problemas como alterações dimensionais, deterioração das bordas e perda de acabamento podem aparecer com o tempo.
Economizar justamente nas ferragens
Dobradiças e corrediças são pouco visíveis, mas estão entre os componentes mais exigidos de um móvel. Uma referência dessa intensidade está nos testes da fabricante Blum, que submete suas dobradiças a 200 mil ciclos de abertura e fechamento.
Por isso, a escolha deve considerar peso, dimensão, frequência de uso e carga prevista. Não é necessário optar sempre pela ferragem mais cara, mas pela tecnicamente adequada.
Não planejar elétrica e hidráulica junto com a marcenaria
Tomadas, iluminação, registros, pontos hidráulicos e eletrodomésticos interferem diretamente no desenho dos móveis. Quando essas etapas são planejadas separadamente, podem surgir tomadas escondidas, recortes improvisados ou tubulações ocupando espaços internos.
Na minha experiência, boa parte dessas adaptações poderia ser evitada se a marcenaria fosse considerada antes da execução das instalações.
Priorizar estética em detrimento da funcionalidade
Um ambiente pode funcionar muito bem em uma imagem e muito mal na rotina. Altura e profundidade dos móveis, abertura de portas e gavetas, circulação e acesso aos objetos precisam considerar quem utilizará o espaço.
Para mim, o melhor projeto não é apenas aquele que fica bonito quando fotografado, mas o que continua fazendo sentido depois de anos de uso.
Não avaliar acabamento e junções
Alinhamento de portas e gavetas, encontros entre painéis, bordas, recortes e folgas têm impacto direto no resultado. Pequenas diferenças podem comprometer a percepção de qualidade de todo o ambiente.
É também nesse ponto que projeto, fabricação e instalação precisam trabalhar de forma integrada. Um bom desenho depende de uma execução capaz de reproduzi-lo com precisão.
Deixar os móveis planejados para o final da obra
Esperar piso, revestimentos, iluminação, elétrica e hidráulica ficarem prontos para pensar na marcenaria reduz as possibilidades do projeto e pode exigir adaptações.
Quando os móveis entram no planejamento desde o início, é possível prever instalações, iluminação, equipamentos e interferências. Móveis planejados não são apenas peças acrescentadas ao final da obra, mas parte da arquitetura funcional do espaço.
Materiais, ferragens e tecnologias ampliaram as possibilidades da marcenaria, mas não substituem um projeto bem pensado. Depois de mais de duas décadas acompanhando desenvolvimento, fabricação e instalação, considero que a diferença entre um móvel que apenas ocupa um espaço e aquele que realmente melhora o ambiente está, muitas vezes, nas decisões tomadas antes da produção.
Na marcenaria planejada, corrigir no projeto quase sempre é mais simples do que corrigir depois da instalação.
*Laercio Carlos Marchioni Filho é empresário e especialista em móveis planejados de alto padrão, com mais de 20 anos de experiência no setor moveleiro. Atua em todas as etapas da marcenaria, do desenvolvimento à fabricação e instalação, com conhecimento técnico em materiais, ferragens, acabamentos e soluções personalizadas para projetos residenciais e comerciais.
Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DO MOBILIÁRIO (ABIMÓVEL). Dados do Setor – Indústria de Móveis e Colchões, 2025.
INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES (Ibá). Relatório Anual 2025 – Painéis de Madeira. Dados referentes à produção e comercialização de MDF e MDP no Brasil em 2024.
INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES (Ibá). Programa Setorial da Qualidade de Painéis de Madeira MDF e MDP.
BLUM. Qualidade do produto – Testes de movimento, carga e corrosão. Testes de dobradiças com 200 mil ciclos de abertura e fechamento.
Texto: Kaísa Romagnoli
Imagem: divulgação
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